Quando se trata de estabelecer a proveniência, seja ela geográfica ou genética, de uma raça canina, os dados reais, mesmo evidenciados, misturam-se sempre com outros, que na realidade, são modificados em parte pela fantasia humana, dando lugar a teorias mais ou menos credíveis. Deste modo, é difícil distinguir o que é lenda e o que é realidade, e talvez seja este aspecto que torna o assunto ainda mais fascinante.
No que se refere à origem do Golden Retriever, os dados são bem definidos; de facto, a sua história é relativamente recente e desenrola-se na Grã-Bretanha por volta de 1850.
O mérito do início da selecção destes cães deve-se a Dudley CouttsMarjoribancks membro de uma ancestral família escocesa e amante do desporto e dos animais, que em 1854 comprou uma coutada na Escócia e que buscava um cão de porte médio, exelente faro, habilidade para buscar a caça tanto na terra como na água, inteligente, obediente, fácil de treinar e calmo.
Em 1881 foi condecorado com o título de Barão de Tweedmouth.
Na sua coutada, dedicou-se com paixão à criação e selecção de animais das mais variadas espécies, desde bovinos a cavalos e póneis. Além disso, possuía numerosos cães, entre eles os “Retriever Dourados”, como são retratados no diário de sua filha Mary e que ele mesmo criou e utilizou, tanto para a pista como para o cobro.
A reconstrução da origem dos primeiros Golden só foi possível dada a precisão deste Barão, que por sorte anotou todos os cruzamentos num livro genealógico.
Actualmente este valioso documento encontra-se na posse do Kennel Club Inglês.
A história dos “Retriever Dourados” de Guisachan (este era o nome da coutada de Lord Tweedmouth) chegou até nós, graças a este livro e a alguns apontamentos tomados em forma de inventário.
Estas notas cobrem um período que vai desde 1864 a 1889, ano de nascimento dos últimos “Cachorros Dourados” registados. Lord Tweedmouth veio a falecer pouco depois, em 1894.
Ao que tudo indica, o primeiro “Retriever dourado” foi resultante de um cruzamento entre dois cachorros negros, e foi único numa ninhada de exemplares negros, de pêlo ondulado (então denominados “Wavy Coated”).
Este exemplar foi comprado por Lord Tweedmouth em 1865 a um sapateiro de Brighton que, por sua vez, o havia conseguido de um guarda-costas de LordChichester.
Não se deve pensar que aquele cachorro cahmado “NOUS” (que em Gaélico significa «sabedoria») fosse uma rareza absoluta; de facto, alguns documentos da época descrevem exemplares de cores diferentes do negro dominante.
Muito provavelmente “NOUS” devia ser um cachorro com características muito espaciais que instigaram o Barão a comprá-lo.
A intenção deste nobre Inglês seria a de programar cruzamentos e seleccionar a sua raça de Retriever utilizando como modelo aquele cachorro dourado, nascido de pais negros. A outra parte do programa fazia referência a uma fêmea Chamada “BELLE” da raça Tweed Water Spaniel; em 1868, “NOUS” cruzou com “BELLE”. É interessante destacar, que deste primeiro cruzamento se puderam fixar grande parte das características do actual GOLDEN RETRIEVER.
Neste cruzamento fundiram-se alguns atributos morfológicos de “NOUS”, com o seu cão bonito manto dourado e ligeiramente ondulado, com algumas características do cão de água de “Belle”, exemplar de Tweed Water Spaniel (raça já extinta). Se pensarmos que os genes destes 2 modelos de tipicidade se perpetuaram no tempo, ainda com a cuidadosa introdução de sangue novo, teremos o indispensável para ministrar muitas explicações acerca da raça actual.
Voltando ao livro genealógico, “NOUS” e “BELLE” procriaram 4 cachorros amarelos ouro: 1 macho e 3 fêmeas. “CROCUS” o único macho, foi cedido ao seu herdeiro, Lord Tweedmouth II; “COWSLEEP” e “PRIMOROSE” permaneceram em Guisachan, e “ADA” que foi presenteada a um sobrinho, o 5º Conde de Ilchester.
Estes 4 exemplares constituem a raiz da raça Golden Retriever
Desde a época daquela 1ª ninhada até 1890, todos os cruzamentos foram registados no livro genealógico de Lord Tweedmouth.
Do exame do pedigree dos últimos cães dourados nascidos em 1889, podem-se extrair alguns dados interessantes: além de utilizar extensamente o “Inbreending” (consanguinidade próxima), Lord Tweedmouth também introduziu novos sangues com meticulosos “Outcross” (cruzamentos não consanguíneos). Entre estes se registaram 1 Setter Vermelho de nome “Sampson”; “Tracer”, um Retriever negro de manto ondulado, irmão de ninhada do então campeão do Retriever, chamado “Moonstone”; outro cão negro, de nome “Zelstone” e outro Tweed Water Spaniel, de nome “Tweed”.
A difusão da raça, a partir do núcleo inicial de Guisachan, não é difícil de compreender se se pensar na vida social da época, em que as batidas de caça, muitas vezes organizadas nas distintas propriedades dos nobres, eram frequentemente uma ocasião para estabelecer contactos diplomáticos, de trabalho e de intercâmbio. É provável que estes cães de caça, utilizados durante estes encontros tenham sido cedidos, vendidos ou oferecidos a outros nobres, visto este desporto ser praticado por toda a aristocracia, tendo assim, a raça difundido por toda a Inglaterra.
A segunda filha de Lord Tweedmouth, de seu nome Ishbel, que casou com o Conde de Aberdeen que entretanto se tornou Governador Geral do Canadá. Dois dos seus outros filho, Coutts e Archie foram também para a América. Através deles deu-se início à raça Golden Retriever no continente Americano.
Ao longo dos anos, a raça criada em 2 continentes distintos evoluiu de forma diferente sob dois “Standard” distintos, sendo hoje possível distinguir um Golden Europeu de um Golden Americano. |